Depois de um ano de planejamento decidi que o local da expedição seria a ponta norte da ilha do Bananal, a maior ilha fluvial do mundo (entre Tocantins, Goiás e Mato Grosso), com 400km de extensão, maior do que diversos países europeus. Trata-se de um lugar totalmente preservado, de natureza intacta pelo homem. E um dos meus objetivos era conhecer um lugar desses, antes que sumam totalmente do planeta.
Apesar de ser radicalmente contra o meu projeto, pelos potenciais perigos inerentes a essa jornada, Deise, minha mulher e companheira de tantas aventuras, me deu todo o apoio logístico, me acompanhando na parte terrestre para eu não percorrer sozinho quase dois mil e quinhentos quilômetros de estrada até o destino, transportando o caiaque e todo o equipamento da expedição. Também estou muito grato ao inestimável apoio da Silvana e do George, biólogos renomados internacionalmente, moradores locais e fundadores do Instituto Araguaia. O principal objeto de estudo do instituto é a ariranha, um dos símbolos dessa região. Profundos conhecedores da natureza local, as informações, dicas e orientações que me deram foram fundamentais para a preparação logística e psicológica da minha expedição que aconteceu em maio de 2025.
Além disso, o George planejou uma estrutura de resgate no caso de eu não retornar em cinco dias. Ele deixou de sobreaviso, no vilarejo mais próximo, uma voadeira, lancha com motor muito possante, para que fosse percorrido o trajeto que eu havia planejado no caso de busca. O problema era que se eu me machucasse logo no primeiro dia, impossibilitado de remar, ou se sofresse um choque anafilático por um ataque de abelhas ou marimbondos, levaria no mínimo cinco dias para que eu fosse socorrido. Mesmo assim, foi um conforto psicológico saber que havia uma estrutura montada em caso de emergência.
Após tantos preparativos, chegou o grande dia. No momento que entrei no caiaque e me lancei no rio senti uma sensação indescritível. Era uma mistura de sentimento de liberdade com euforia por finalmente se tornar realidade o sonho que tantas vezes reprisei na minha mente ao longo de meses de planejamento.

Já no primeiro dia da jornada vi uma família de índios na beira do rio. Estranhei, pois pensei que a região fosse totalmente desabitada. Depois soube que várias tribos habitam a ilha, sendo que uma, a dos Caras Pretas, vive no isolamento total. No pleno século XXI!
Um dos grandes problemas que enfrentei foi o de achar local adequado para acampar. A região é uma das que possuem a maior concentração de onças pintadas, e eu queria a qualquer custo evitar mata fechada, preferindo praias de areia com espaços mais abertos. Nessa época, a bacia hidrográfica está se esvaziando das cheias de verão, deixando a descoberto inúmeras praias ao longo do caminho. Só que este ano, o nível dos rios estava excepcionalmente alto, impedindo o aparecimento de qualquer praia no primeiro trecho da expedição.
Já era final de tarde quando saí do rio Javaés e entrei no Javaezinho. Calculei que teria ainda aproximadamente duas horas e meia de luz para procurar um lugar para pernoitar. Seria uma decisão difícil. Poderia surgir um lugar viável, mas não muito adequado, e neste caso a decisão que teria que ser tomada era de ficar, deixando de aproveitar o tempo de luz que ainda resta para continuar remando e, quem sabe, encontrar um lugar bem melhor mais à frente, ou continuar o caminho, assumindo o risco de anoitecer sem ter encontrado um lugar para pernoitar. E à medida que o sol ia se pondo, a pressão ficava cada vez maior.
Mas nesse caso, não havia decisões a tomar porque não havia opções. Simplesmente não havia nenhum lugar que, mesmo remotamente, poderia servir para acampar. Ou eram barrancos verticais de três metros ou densa mata amazônica se estendendo sobre o rio, ambos inviabilizando qualquer tentativa de aportar. Ou seja, a opção era continuar remando. À medida que escurecia, crescia a minha aflição. Mesmo exausto, depois de um dia inteiro de intensa atividade física, comecei a remar mais rápido, esperando encontrar uma solução atrás de cada curva do rio. Racionalmente pensando, as chances de encontrar um lugar que pudesse me acolher eram mínimas, já que não tinha passado por nenhum nas últimas cinco horas de navegação. Eu sabia que haveria praias no próximo rio, o Araguaia, mas isso significaria mais cinquenta quilômetros de remada à noite, num rio desconhecido, infestado de perigos, e acima da minha capacidade física.
Sem saber o que fazer, continuei remando, esperando um milagre. O sol já estava se pondo quando o milagre aconteceu. Atrás de uma curva apareceu um casebre, em cima de um barranco bem alto. Me aproximando percebi que havia um mangue na lateral, que me permitiria acesso. Mal encostei o caiaque na borda lamacenta, apareceram cachorros latindo e com eles o dono, o único ribeirinho que encontrei nos quase duzentos quilômetros da expedição.
– Boa tarde meu amigo, respondi ao cumprimento dele. Saberia me dizer se lá pra frente haveria alguma praia ou lugar para eu acampar e passar a noite¿
– Com certeza não tem, o rio ainda não esvaziou o que devia para essa época do ano. Mas por que você não acampa aqui? Os cachorros estão aí para dar alarme se qualquer bicho aparecer.
– Não foi uma decisão difícil. Aceitei o convite, armei a barraca ao lado do barraco dele e prometi que, para retribuir, iria preparar uma jantar para nós dois. O Santana, que tinha passado o dia na rede tomando pinga, pareceu animado com a perspectiva de uma refeição. Preparei a minha “Gorroroba Trovão”, macarrão com molho de tomate, linguiça calabresa e milho, comida consistente e calórica, da qual ambos estávamos precisando.
Enquanto jantávamos, eu ouvia as suas histórias de pescador, o que ele efetivamente era desde a infância. Vivemos em mundos muito diferentes e eu acho tão enriquecedor ter a oportunidade de conhecer um pouco uma vida inteira cheia de experiências e vivências tão distintas das minhas. Fiz muitas perguntas sobre os rios à frente e as dificuldades que poderiam surgir. O que mais me impactou foi o relato de um ocorrido no rio Javaés de duas semanas atrás, quando um jacaré atacou uma barraca, pegando a perna do pescador que estava dentro. A sorte dele é que os companheiros ouviram os gritos e vieram acudir. Mas essa história ficou na minha cabeça até o final da viagem. Eu sabia que essa região está repleta de jacarés, principalmente de jacarés açú, que são os maiores do mundo, atingindo seis metros de comprimento. Mas eu também sabia que eram geralmente tímidos, em comparação com os seus primos, os crocodilos africanos e australianos, e daí a minha surpresa com essa história.
E como se fosse para completar o relato, ele me informou que havia um grande jacaré, residente local, que aparece toda a noite e fica de tocaia embaixo do barranco, na esperança de pegar um dos cachorros.
Fui deitar-me, cansado, mas despertando diversas vezes com os latidos dos cachorros. O Santana me explicou que eles dão alarme quando aparece algum bicho, pode ser onça, cachorro do mato, anta, jacaré, boto. Ele já perdeu quatro cachorros que a onça pegou. Sabendo que a mata fechada ficava a alguns metros da barraca e que não havia nenhuma cerca de proteção, essa informação não contribuiu para me deixar mais tranquilo.

Por volta das dez horas saí da barraca para ver a lua, que tinha acabado de sair, cheia e majestosa. Foi uma experiência multissensorial. O reflexo da lua sobre as águas do rio, as sombras da densa mata guardando os seus segredos, os cheiros desconhecidos de flores e plantas, e os sons, dezenas de sons de criaturas que fazem da noite a sua vida. Me aproximei do barranco e acendi a lanterna. O Santana tinha razão, dois olhos vermelhos estavam me encarando logo abaixo. Não consigo avaliar o tamanho do jacaré pelos olhos, mas pelo splash que se seguiu posso afirmar que era grande. Derivou pelo rio e parou uns dez metros adiante. Não senti medo, porque o barranco era íngreme e alto, mas fiquei fascinado por esse primeiro encontro.
No dia seguinte acordei ao raiar do dia. Dei parte dos meus mantimentos não perecíveis para o Santana em sinal de gratidão e segui viagem.
No meio do caminho, vi um vulto que submergiu próximo ao caiaque, emitindo um som que parecia um calibrador de pneus. Fiquei intrigado, e daqui a pouco tive a mina resposta: era um grupo de botos, brincando e me acompanhando. E o som característico era a respiração deles. Foi o primeiro de muitos encontros, e as vezes eles me acompanhavam por longos períodos. Uma companhia muito alegre e agradável, por sinal.
O encontro com o rio Araguaia foi um choque. Após navegar o Javaés e o Javaezinho, rios relativamente estreitos, me deparei com um gigante de vários quilômetros de largura. A dificuldade inicial foi a navegação, já que o rio é entrecortado por centenas de ilhas e é difícil reconhecer se estamos vendo a verdadeira margem ou alguma ilha. Google Maps não é de nenhuma valia, porque ilhas desaparecem e outras novas se formam de um dia para outro, ao sabor das cheias.
Araguaia foi o rio onde os botos me fizeram a maior companhia. Eu conversava com eles e eles correspondiam nadando em volta do caiaque. Não sei se me entendiam, mas prestavam a maior atenção.

Foi aí que aconteceu um dos momentos mais tensos da travessia. Os moradores locais haviam me prevenido contra os perigos do “Banzeiro”. É o vento norte, que quando entra forte provoca ondas de mais de um metro, que podem facilmente virar a embarcação. E ele passa de leve brisa à intenso vendaval em questão de minutos. A recomendação é procurar a terra mais próxima e sair imediatamente da água. Quando o vento apertou e a superfície da água começou a encrespar formando ondinhas e “carneirinhos”, me dirigi à ilha mais próxima, que ficava a uns quatrocentos metros. Parecia perto, mas o vento contra estava aumentando rapidamente, tornando cada metro de avanço um esforço muito penoso. As ondas crescentes estavam batendo com força no casco e eu estava tendo dificuldade cada vez maior para equilibrar o caiaque.
Foi aí que a situação, que já estava tensa, complicou de vez. O rio é formado por partes fundas e outras rasas, que são as ilhas que lentamente estão emergindo. De repente me vi encalhado na ponta de uma ilha submersa. Com a proa imobilizada, o vento começou a virar o caiaque na lateral, de forma que as ondas começaram a passar por cima dele. Senti que ele iria capotar a qualquer instante. Olhei em volta em desespero. De um lado, dois quilômetros até a margem esquerda, do outro lado, um quilômetro e pouco até a margem direita, e eu no meio tentando sobreviver. O maior problema nem era perder o equipamento e os mantimentos da expedição, mas cair na água a mercê dos jacarés, dos peixes elétricos cuja descarga atinge 600 volts, das raias que abundam nessa região e têm uma ferroada absurdamente dolorosa, das três espécies de piranhas que infestam essas águas, ou dos bagres gigantescos que têm uma enorme boca, desdentada, mas que é capaz de pegar a perna de uma pessoa e puxar para o fundo confundindo-a com comida. Costumam largar a presa após alguns minutos, na maioria das vezes muito tarde para a pessoa sobreviver.
Em flashes todas essas informações passavam pela minha mente, avisos que havia recebido de cientistas biólogos, residentes nessa região da selva amazônica e profundos conhecedores desse ecossistema. Mas o meu anjo da guarda está sempre de plantão. Usando o remo consegui desencalhar o caiaque sem virar, e seguir para a ilha próxima, redobrando com o susto o esforço da remada. De repente, quando estava quase chegando, o furacão amainou como num passe de mágica, a condição do rio voltando ao normal. Decidi não me afastar mais da margem pelo restante da travessia do Araguaia.
O sol começou a ficar avermelhado, já baixo no horizonte, e a noite estava se aproximando. Estava procurando um bom lugar para acampar quando avistei uma pequena duna de areias brancas, de aproximadamente dois metros de altura, cercada de densa mata. Com uma vista panorâmica do rio e da floresta circundante, parecia um lugar idílico, cenário de filme. Comecei a mudar de opinião quando desembarquei. Encontrei na pequena praia, em frente à duna, inúmeras pegadas de jacaré, bem frescas, algumas pequenas, outras maiores que a palma da minha mão. Não saberia estimar qual seria o tamanho do jacaré, mas o achado me deixou bem desconfortável. O sol estava se pondo e não havia tempo para procurar outro lugar para pernoitar. Montei a barraca e por precaução, cerquei-a com inúmeros galhos e arbustos secos. Não que eles fossem impedir um jacaré de entrar, mas pelo menos me dariam alarme de que algum bicho está rodando a barraca. Recolhendo os galhos no mato vi que tinha uma pequena lagoa bem atrás da minha duna, onde achei diversas pegadas de paca e de onça. Entendi que era o caminho para o rio que a paca fazia, e que a onça provavelmente seguia a sua presa. E a minha barraca ficava exatamente no meio desse trajeto. O que me reconfortou um pouco é que as pegadas não eram tão frescas como a dos jacarés, provavelmente já tinham alguns dias.

Aos poucos foi anoitecendo. Ao contrário do Javaés e do Javaesinho, que têm águas mais escuras e cuja composição inibe a proliferação de mosquitos, o Araguaia deve ser provavelmente o local de reunião de todos os mosquitos do mundo. De dia eles não se fazem notar, mas ao anoitecer, são literalmente nuvens de insetos de todos os tipos tentando saciar o seu apetite voraz. Era impossível acender a lanterna da cabeça. Eles entravam nos olhos, boca, ouvidos. Tive que segurar a lanterna na mão, longe do corpo, e mesmo assim, o processo era ligar a lanterna, memorizar a disposição das coisas e logo apagar, repetindo o processo a cada dois ou três minutos. Desisti de preparar um jantar e me contentei com uma refeição de leite e sucrilhos, temperada com muitos insetos que caíam no prato. No escuro não dava para distinguir dos sucrilhos. Proteína, pensei. O que não mata, engorda, e depois de onze horas remando, com apenas uma refeição matinal, eu necessitava me alimentar a qualquer custo.
Sentei-me em frente à barraca numa pequena cadeira, desmontável e leve, um pequeno conforto que me permiti, já que cada peso a mais no caiaque significa maior esforço na remada. Com a lanterna apagada, toda a imponência do céu estrelado se fez sentir. A centenas de quilômetros de qualquer luz artificial, as estrelas tinham um brilho que nunca tinha visto. A imensidão da Via Láctea e do universo circundante me fizeram sentir muito pequeninho e ainda mais isolado. No meio da minha divagação filosófica sobre a nossa insignificância em relação à vastidão do universo, decidi acender a lanterna e checar o rio à minha frente.
Levei um susto quando vi dois olhos avermelhados me observando de dentro d’água, na margem esquerda da prainha, a uns dez metros de onde eu estava sentado. Rapidamente iluminei o perímetro em volta da barraca, mas por sorte nenhum outro bicho encontrei. O que faço agora? Qual o tamanho desse jacaré? Quais as suas intenções em relação à minha pessoa? Enquanto raciocinava tive que apagar a lanterna por causa dos insetos, acendendo-a a cada dois a três minutos para checar a posição dele. Esse jogo durou bastante tempo e me lembrava de um outro, da minha infância, onde as crianças se aproximavam da outra que ficava de costas, mas quando esta se virava abruptamente, as outras tinham que se imobilizar. No nosso jogo, o jacaré estava bem imóvel, de forma que comecei a aumentar os intervalos para aproximadamente cinco minutos, tentando economizar a bateria da lanterna.
De repente, acendi a lanterna e não o encontrei. Varri a água com a luz procurando localizá-lo e eis que o encontro, bem em frente de onde estava sentado, a uns cinco metros de distância! De dentro d’água, apenas os seus olhos flamejantes visíveis, ele veio para me sacar melhor. Será que era apenas curiosidade ou fome mesmo? Imediatamente me lembrei do jacaré que conheci na casa do ribeirinho, que ficava pacientemente de tocaia à noite tentando pegar um dos cachorros. O relato do ataque do jacaré à barraca, pegando a perna do pescador, também não me saiu da lembrança.
Enquanto estava pensando o que fazer deixei a lanterna acessa, apontada para o Theobaldo. Sim, resolvi dar um nome a ele, pela intimidade que estávamos vivenciando. Theobaldo era um jacaré de brinquedo que ficava debaixo da cama das minhas filhas quando eram pequenas. Com a sua proteção, elas se sentiam mais seguras. Talvez inconscientemente eu também estivesse buscando essa sensação de segurança.

O tempo estava passando, os minutos viraram horas. A lua, quase cheia, já estava despontando no horizonte, iluminando esse palco inusitado com a sua luz prateada. Por um momento pensei em levantar o acampamento e sair remando para algum outro lugar. Mas a simples ideia de entrar no rio, disputando espaço com o Theobaldo e os seus amigos, me fez desistir rapidamente dessa opção.
Cheguei a considerar a hipótese de ficar de vigília a noite toda, mas o extremo cansaço inviabilizou essa ideia. A bateria da lanterna já estava se acabando e alguma decisão teria que ser tomada. O esgotamento físico prevaleceu, simplesmente decidi ir dormir. Peguei uma faca de caça que peguei emprestado de um amigo e me fechei na barraca. Obviamente, a faca não seria de muita utilidade no caso de um ataque de jacaré, mas era principalmente um suporte psicológico.
Em instantes caí num sono profundo e só acordei ao raiar do dia. Nada tinha acontecido e o Theobaldo não estava mais ali. Respirei aliviado e iniciei os preparativos para mais uma jornada. O amanhecer estava magnífico. O frescor da noite foi aos poucos cedendo ao calorzinho gostoso dos primeiros raios de sol. A fauna já estava em plena atividade e a visão do rio, dos bancos de areia branca e da mata virgem era um espetáculo digno de palmas.
Segui viagem buscando o Furo do Cicica, a passagem que conecta o rio Araguaia ao rio do Côco, atravessando a gigantesca ilha do Bananal. A largura do Cicica é de poucos metros, contrastando com os quilômetros da largura do Araguaia. Tive que me concentrar muito para não passar da entrada do furo, relativamente escondida, pois dificilmente poderia retornar rio acima, devido à forte correnteza do Araguaia. Mas deu tudo certo e finalmente estava em águas calmas e estreitas do Cicica. A vegetação luxuriante transbordava, invadindo o rio em ambos os lados. O dia estava lindo e eu estava amando cada instante dessa experiência. Cada curva era a descoberta de algo novo e atiçava a curiosidade do que eu iria encontrar na curva seguinte. Dezenas de espécies de aves decoravam o trajeto com suas penas multicoloridas. De vez em quando ouvia o respiro de botos me seguindo.
Foi quando avistei um grande tronco no meu caminho flutuando na superfície. Me aproximando mais percebi que era um jacaré de aproximadamente três metros e meio. Eu sempre imaginei que quando o jacaré está na água, a única parte do corpo visível são os olhos e as narinas. Mas os moradores locais me ensinaram que quando o jacaré está em posição de ataque ele literalmente infla, e fica com todo o corpo acima da superfície, provavelmente para mostrar o seu tamanho e intimidar o adversário, o que no meu caso era totalmente desnecessário. Nessa situação ele se propulsiona com movimentos vigorosos de cauda, deslizando em alta velocidade por cima d’água, na direção da vítima. Tinham me aconselhado que nessa situação eu colocasse o caiaque de lado, para parecer maior e assustar o jacaré, mas sinceramente achei que essa manobra não teria muito efeito.
Por sorte ele continuou derivando devagar para a margem oposta do rio, deixando espaço para que eu passasse. Mais tarde, os meus amigos biólogos comentaram que ele estava provavelmente medindo foças com algum outro jacaré e não estava interessado na minha pessoa. Ainda bem. Sinto pelo outro jacaré.

A viagem continuou sem outros sobressaltos. O final do dia estava se aproximando e o meu objetivo era chegar no ponto combinado de resgate, finalizando a expedição. Com o sol se pondo, a ansiedade estava aumentando. A cada curva eu esperava ver por cima da copa das árvores a caixa d’água do Instituto Araguaia, a minha referência do local de chegada. E nada dela aparecer. Comecei a acreditar que apesar dos meus esforços eu havia me perdido. Sem GPS para confirmar a minha posição, a única alternativa era continuar remando, apostando uma corrida com a noite que estava chegando.
E quando já estava convencido de que tinha errado o caminho, ela apareceu. Como uma visão tão simples pode nos deixar tão feliz!
Aportei na margem esperando o resgate, fisicamente esgotado, mas saboreando os últimos momentos do tão sonhado projeto. Me senti muito grato por ter tido o privilégio de conhecer essa natureza intocada e, apesar de sustos, de tudo ter corrido bem. Pouco depois já estava de volta aos confortos da civilização, no Instituto Araguaia, degustando um bom vinho e saboreando uma deliciosa lasanha preparada pelo chef George.
PREDRAG PANCEVSKI é Sérvio, nascido na antiga Iugoslávia na década de cinquenta, mas brasileiro de coração, Predrag sempre foi atraído pela natureza. Como Lobinho, aos oito anos, descobriu os encantos das montanhas europeias e a importância da camaradagem. O seu tio Milan lhe ensinou os fundamentos de iatismo no rio Danúbio. Mais tarde, vindo com a família para o Rio, teve oportunidade de conhecer bem o mar, praticando iatismo, caiaque, mergulho, e pegando “jacaré” na praia de Copacabana. Se tornou guia de montanhismo e, posteriormente, instrutor de guias de montanha. Junto com a Embratur estruturou e ministrou os cursos oficiais de formação de guias de turismo ecológico. Até hoje, já com 67 anos, continua apaixonado pela aventura, voando de asa delta, fazendo trekking, e explorando de caiaque os rios do interior brasileiro. https://predragpancevski.com/
Leia também o artigo “O kosovo da Amazonia” – https://terrasindigenas.org.br/noticia/61777

* Lenço de lobinho de Predrag Pancevski, da tropa de Belgrado.
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