O escotismo vem de uma longa tradição que pode ser analisada por dois vieses quando falamos na participação em eventos dos Papas. O primeiro, relativo ao escotismo católico que desde 1917 existe no Brasil e que foi uma das associações fundadoras do movimento escoteiro deste País. Como descreveu o Velho Lobo no periódico “O tico-tico”, o escotismo se espalhou efetivamente por essas terras quando a Igreja Católica o adotou. Considera-se também que diferente do Brasil que fusionou suas antigas associações para uma administração central (UEB), muitos países fizeram o caminho oposto e possuem associações de denominações religiosas separadas embora dentro da mesma rede do escotismo (WOSM), como caso de Portugal (CNE) e da Itália (AGESCI). E existem órgãos mundiais para o incremento das religiões no movimento como é o caso da CICE (Conferência Internacional Católica de Escotismo). A segunda é que, por essência, o escoteiro atua na sua comunidade próxima prestando serviços aos eventos populares que ocorrem e são ocasiões em que coloca em pratica o que aprendeu das técnicas úteis, ajuda ao próximo, desempenha o caráter e a liderança ensinado na rotina das atividades semanais.
Faleceu nesta segunda 21 de abril de 2025 o Papa Francisco, que conhecemos em 2013 por ocasião da realização da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) no Rio de Janeiro, coordenada por Dom Orani João Tempesta. Esperávamos a vinda de Bento XVI, o Papa alemão, conhecido por ser um grande teólogo e pessoa mais contida, diferente de seu antecessor. Um pouco antes da JMJ, houve uma mudança inesperada e quem veio foi Francisco, com atitude e bastante energia. Ele trazia consigo uma grande quantidade de escoteiros argentinos (COPASCA) que nós desconhecíamos, porque só tínhamos a visão dos nossos limites próximos. Eles vieram em grandes quantidades. Cantavam, trabalhavam e eram a Igreja. E eram escotismo ao mesmo tempo. Eram nossos irmãos e estavam conosco em todas as ações que realizamos.
Tudo foi uma grande novidade para muitos de nós tendo em vista que não tínhamos um evento Papal no Brasil desde 1997, a última das três vezes que João Paulo II esteve por aqui. Parece que estávamos desacostumados com a presença do Papa enquanto o escotismo brasileiro havia se afastado definitivamente da religiosidade e atravessava uma série de mudanças internas que vinham desde os anos oitenta. Poucas eram as iniciativas.
Rhine Moot, 2005. Aachen.
Oito anos antes fiz uma viagem por minha conta. Fui o primeiro escoteiro brasileiro a ir a uma JMJ, a de Colônia, na Alemanha, no ano 2005. Já havia uma movimentação no grupo jovem da Paróquia mas a decisão definitiva se deu depois que recebi um e-mail de uma chefe de Santa Catarina, encaminhado uma mensagem da associação católica da Alemanha (DPSG) que oferecia apoio aos escoteiros que fossem para a JMJ, incluindo um acampamento prévio em Aachen, chamado de Rhine Moot. Fui, oficialmente, e presenciei pessoalmente aquele mar de escoteiros católicos na Jornada Mundial. Esperávamos encontrar com João Paulo II naquela JMJ mas acabou acontecendo igual foi em 2013. E recebemos o novo Papa: Bento XVI.
Na volta dessa viagem, depois de um ano e meio vivendo em Portugal e visitando escoteiros pelos demais países, escrevi para a revista da CICE-América, como correspondente contando como foi a experiência da JMJ. No encerramento da edição de Madrid, em 2011, organizamos um contingente de escoteiros católicos para assistir o anúncio de que a JMJ viria para o Brasil. Coloquei-me a disposição para organizar a participação do escotismo e comecei a frequentar semanalmente o Comitê Organizador Local na cúria metropolitana do Rio de Janeiro. Com o apoio do presidente nacional e dos conselheiros da UEB, foram quase três anos de preparação para o grande momento que viria no Rio de Janeiro.
Anuncio da JMJ no Rio, 2011.
Realizamos uma novena escoteira que precedeu os nove meses da JMJ, no Rio e em São Paulo. Fomos a sedes de grupos em Igrejas, criamos documentos em vários idiomas para chegarem aos escoteiros mais distantes. Lançamos um lenço oficial e nos entrosamos com o pessoal da FBB (Federação de Bandeirantes do Brasil). Planejamos e fizemos caminhadas em trilhas nas florestas urbanas do Rio de Janeiro conduzindo o pessoal do Comitê Organizador Local e preparando o que seria a nossa ação de controle preventivo aos trilheiros estrangeiros além de um grande treinamento de voluntários no Museu Naval. Certa vez escutei de um amigo excursionista: “não entendemos como não houve problemas de gente perdida nas trilhas durante a JMJ de 2013”. Eu sabia a resposta: os escoteiros guarneceram as principais trilhas, organizando e acompanhando os grupos que seguiam os caminhos durante todos os dias da jornada e desde uma semana antes. Além das trilhas do Rio como o Morro da Urca, Pedra Bonita, Floresta da Tijuca, Parque da Catacumba também estivemos no Morro Azul, no Cristo Redentor, na Ilha de Boa Viagem e no Parque da Cidade em Niterói. Até Dom Mario Poli, arcebispo de Buenos Aires, um escoteiro, caminhou na trilha do Parque da Catacumba, sob chuva, guiado pelo nosso pessoal.
escoteiros e peregrinos na Pedra Bonita.
Missa preparatória com Dom Orani, na Candelária
Pouco antes da JMJ realizamos nossa missa de envio, celebrada por Dom Orani João Tempesta diante de uma Igreja da Candelária lotada de escoteiros. Como fazia tempo que os escoteiros aqui não se reuniam em uma Igreja… E fizemos também um Grande Jogo Escoteiro no domingo anterior, pelo bairro da Urca, recepcionando vários escoteiros estrangeiros lhes oferecendo escalada, jogos e músicas. A abertura escoteira da Jornada foi uma missa no espaço da feira vocacional, no Campo de São Cristóvão. A missa foi presidida por Dom Mário Poli, acompanhado de Pe Joe Weber (capelão interamericano), Pe Rui Silva (Capelão português), Pe Jacques (capelão mundial) e nosso Pe Agostinho (capelão escoteiro da Marinha do Brasil). E contou com uma banda de escoteiros, que tocaram e cantaram as músicas religiosas incluindo uma baterista escoteira do Uruguai. No mesmo espaço ainda montamos em conjunto com as Bandeirantes (FBB) uma pista de cordas e área de jogos (vôlei, arco e flexa …) para os peregrinos e uma grande pista de cordas feita sob andaimes para não ferir às arvores. Mais à frente fomos convocados para voltar à Feira Vocacional a fim de formar um grande corredor de escoteiros e bandeirantes, para a passagem do Papa Francisco que foi confessar os jovens.
Missa de abertura escoteira

Jogos diversos na Feira Vocacional
Para os escoteiros estrangeiros, além de recepcioná-los na chegada ao Rio ainda conseguimos organizar um acampamento exclusivo, no Campo de Futebol do Zico, um famoso futebolista brasileiro. Com direito a um radioamador para falarem para o mundo a qualquer momento. A maioria deles eram os argentinos que puderam contar com uma festa de acolhimento no CCME (Centro Cultural do Movimento Escoteiro) que foi chamado de “Casa Escoteira na JMJ”, local onde conseguimos disponibilizar por todo o período computadores e internet para os estrangeiros ficarem à vontade para se comunicar com suas casas. Como o CCME era um local bem central na cidade, funcionou bem.
O CCME serviu de apoio aos escoteiros de todo o mundo
Mas, ser escoteiro não é apenas se planejar e executar com previsibilidade, perfeição e com o menor custo possível. É também lidar com improviso e com emergência. E assim aconteceu. Tudo o que a arquidiocese nos acionava para ajudar, lá estávamos nós. O Papa Francisco resolveu fazer uma missa para os argentinos, e lá estávamos nós para fazer a segurança, organizar filas e redistribuir os bancos de madeira. Missa com os padres? Lá estivemos nós brasileiros, portugueses, argentinos na véspera, debaixo de chuva e à noite, organizando as grades, limpando o chão e reorganizando de novo os bancos de madeira. No dia seguinte, mais uma vez fazendo a triagem e a segurança da catedral. É isso mesmo, nós fomos polícia e fiscal da portaria externa e da sacristia.
guardando a porta da sacristia
Corredor para a saída dos religiosos
Uma semana e meia antes, foi mais um telefonema da cúria que nos colocou ao lado de um pelotão de aspirantes da Marinha do Brasil para formar a guarda de honra da Santa Cruz que percorreria a Via Sacra pela praia de Copacabana. E num piscar de olhos encontramos vinte jovens escoteiros, todos crismados, para circular a cruz tocando as matracas pelo longo percurso da praia de Copacabana. Vários ensaios realizados e até um médico voluntário tivemos que encontrar para ir de laranjeiras ao recreio atender à exigência imediata da Justiça que resolveu, na última hora, a necessidade de atestado dos menores de idade para participar da Via Sacra. Nunca vi algo tão lindo como aquela Via Sacra televisionada na principal emissora do Brasil para todo o mundo. E lá estivemos nós com muita honra e satisfação.
Via Sacra em Copacabana
A Jornada terminou com a missa campal na praia de Copacabana. Uma oportunidade única de escutarmos na hora da comunhão o som limpo do mar, como se estivéssemos em uma praia virgem. Depois da missa, todos os escoteiros que trabalharam na JMJ voltaram a pé, sossegados, balançando bandeiras, conversando com todo tipo de gente e saudando o novo Papa que iniciava sua trajetória.
Os anos se seguiram a partir de 2013 e o escotismo no Brasil que parecia estéril de espiritualidade católica voltou a realizar missas em eventos nacionais, recebeu diversas vindas do Capelão Mundial ao Brasil, eventos da CICE, Seminários de Escotismo Católico, voltou a ter a abertura de grupos de denominação católica em Paróquias e Colégios tal como passamos a ter dois Bispos Referenciais na CNBB (Dom Maurício e Dom Paulo) e um Capelão Nacional, o Padre Hugo Galvão. Não sei se podemos dizer, que de certa forma, foi uma consequência do papado de Francisco porque as JMJ foram criadas pelo seu antecessor João Paulo II, porque as pessoas que trabalharam vinham de suas experiências e formações religiosas anteriores e pessoais. Mas, de fato, tudo isso ocorreu, até agora, no período de Francisco a frente da cátedra de Pedro. E por esses doze anos foram muitas as imagens que recebemos do Papa usando chapelão, lenços e olhando com ternura para os escoteiros.
E esse foi mais um capítulo da nossa história. Que Deus receba nosso Papa Francisco, amigo dos escoteiros.

ANDRE TORRICELLI é presidente do Centro Cultural do Movimento Escoteiro e foi o coordenador geral para o movimento escoteiro na JMJ-Rio-2013.
Você precisa fazer login para comentar.